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Sobre Palavras

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by Verônica Ferriani & Chico Saraiva

Sobre Palavras Cover Art
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about
CD SOBRE PALAVRAS REÚNE O COMPOSITOR/INSTRUMENTISTA CHICO SARAIVA, A CANTORA VERÔNICA FERRIANI E O LETRISTA MAURO AGUIAR
Álbum tem participação de Chico César, Carlos Malta, Toninho Ferragutti, Marcelo Pretto e Pepe Cisneiros

O CD Sobre Palavras é um trabalho coletivo, a síntese artística de uma cantora de personalidade, Verônica Ferriani, de um compositor-arranjador-instrumentista inspirado, Chico Saraiva e um letrista antenadamente contemporâneo, Mauro Aguiar. Contemplado pelo projeto Pixinguinha 2009 (um dos dois únicos trabalhos premiados no estado de São Paulo), o disco é também um dos primeiros lançamentos do selo Borandá e que tem distribuição da Tratore.

A parceria entre Chico e Verônica não é nova. A partir do convite do violonista para que ela participasse da turnê do seu disco Trégua (2003), construiram uma sólida parceria musical. Mauro, desde que letrou algumas músicas de Chico para o disco Saraivada (2007), se mantém presente. Juntar os três foi um acontecimento natural, que começou em 2008, quando Saraiva, pela primeira vez, se propôs a compor melodias a partir de letras. Escolheu as de Mauro, ficou satisfeito com o resultado e idealizou o álbum. Depois veio a seleção pelo Pixinguinha, coroando a empreitada.

Em cada faixa de Sobre Palavras pulsa a criatividade e talento de três representantes de uma geração que procura novos desdobramentos para suas referências musicais. Chico explica: “É uma resultante que traz a poesia do Mauro, minha marca como compositor-arranjador e o canto singular de Verônica, tornando-a um projeto especial na trajetória de cada um”. Verônica complementa: “Chico entra com a música mais elaborada no sentido harmônico/melódico e eu com a cara popular através de uma clareza interpretativa e de intenções que me são prioridade ao cantar”.

E já que é de palavras que trata esse disco, vamos a algumas delas. “Apele pra a pele maluco!/ ela é que te dá um toque/ ela é que te impele para o ato/ antes que tu se sufoque/ ela é que dispensa o papo/ ela é que te faz profundo/ nela é que tu roça o mundo/ que se tatua em tua entranha” ou “Eu recorro ao erro sempre que posso/ E erro e erro e erro sem remorso/ O remorso é o filho bastardo da culpa/ Aquela que não come a fruta/ Mas engole o caroço/ Aquela que não come a carne/ Mas não larga o osso.”

VERÔNICA FERRIANI
A paulista Verônica Ferriani é uma das gratas surpresas da nova cena musical. Paralelo ao lançamento do CD Sobre Palavras, ela está em fase de divulgação do seu primeiro CD solo, Verônic a Ferriani, produzido por BiD e lançado em fevereiro de 2009. Tem cinco anos de carreira, mas o pique é de veterana. Estreou em 2004, como vocalista da banda de Chico Saraiva. A partir daí, dividiu palcos com Beth Carvalho, Jair Rodrigues, Martinho da Vila, Tom Zé, Marcelo D2 e Moska, gravou em discos de Lúcio Maia (Nação Zumbi) e Flávio Henrique e participou do Som Brasil (TV Globo, 2007) cantando a obra de Ivan Lins. Fez temporada em importantes redutos do samba no eixo Rio/São Paulo, como Traço de União e Ó do Borogodó paulistas e Carioca da Gema, na Lapa carioca. Integra ainda a banda Gafieira São Paulo, que esteve em cartaz por dois anos no Tom Jazz (SP).

CHICO SARAIVA
Chico Saraiva nasceu no Rio de Janeiro, foi criado em Santa Catarina e desde 1995 vive em São Paulo. Seu trabalho, desde sua estréia com o álbum Água (MCD/1999), apresenta um equílibro que segue trajetória entre o sofisticado e o popular. Cita como influências Villa-Lobos, Edu Lobo e Guinga. Considerado um dos melhores músicos de sua geração, Saraiva foi vencedor do 6º Prêmio Visa de MPB – Edição Compositores, que lhe rendeu o lançamento do disco Trégua (Bisc oit o Fino/2003), considerado ‘uma obra-prima’ pela revista francesa “Les Inrockuptibles”. Saraivada (Bisc oit o Fino/2007), seu terceiro disco, também recebeu elogiosas críticas de imprensa. Em paralelo, é co-fundador do grupo paulistano A Barca, que pesquisa música brasileira de raiz desde 1998, e apresenta agora o Duo Saraiva-Murray, com o violonista Daniel Murray, que estréia em Paris, em novembro de 2009.

MAURO AGUIAR
Mauro Aguiar é carioca, neto de baiana e paulista. Descreve-se como “a primeira pessoa multiplicada. O delírio do real possível-impossível. Letrista-cantor, fatal pendor para a canção, amálgama e descanso de sua alma inquieta”. Foi por duas vezes consecutivas finalista do Prêmio Visa Edição Compositores. Atualmente finaliza seu primeiro CD, Transeunte. Tem músicas gravadas por Ivan Lins, Fátima Guedes, Zeca Pagodinho, Zélia Duncan, Mônica Salmaso e Paula Santoro. É parceiro de Guinga, Zé Miguel Wisnik, Zé Paulo Becker, Edu Kneip, Mário Séve, Rodrigo Lessa e João Nabuco.

BORANDÁ
Com a certeza de que há público e mercado ainda não descobertos pela música brasileira, tanto no próprio país como no exterior, o selo Borandá (nome de uma música de Edu Lobo e também uma expressão nordestina que significa ‘vamos embora andar’) tem uma nova concepção para a produção e promoção da nossa arte. A empresa trabalha seus artistas a partir do chamado “conceito 360 graus”, que contempla as atividades de produção fonográfica, agenciamento de shows, edição de músicas, marketing e venda direta de produtos. Convicta de que a internet é a importante ferramenta para a divulgação destes trabalhos, a Borandá cria, por meio do mundo virtual e da realização de shows e concertos no Brasil e no exterior, os meios de levar magia e diversidade da música brasileira a novos públicos. Cumpre, assim, a missão de viabilizar a produção musical artística brasileira com estratégia e inovação.

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THE CD SOBRE PALAVRAS, BRINGS TOGETHER THE COMPOSER/INSTRUMENTALIST CHICO SARAIVA, SINGER VERÔNICA FERRIANI AND SONG WRITER MAURO AGUIAR.

It is safe to say the CD Sobre Palavras should be seen as a true display of group work, the artistic result of a strong character singer, Verônica Ferriani, the composer – arranger – instrumentalist Chico Saraiva and surprisingly contemporary Mauro Aguiar. The CD already has to show for itself being one of the two CDs from São Paulo to have won the Pixinguinha prize in 2009. Besides the prize, it is one of the first CDs to be launched through the Borandá record label, and it counts on Tratore’s distribution.

Chico and Verônica’s partnership goes way back. It started when the guitar player invited her to take part in the tour of his album Trégua (2003). Since then, a strongly built musical partnership can be seen. Mauro on the other hand, has been in the picture since he wrote some songs for Chico’s Saraivada (2007). From then on, it was just a matter of time for the three of them to start working together. Finally in 2008, Saraiva decided to write melodies for lyrics that had already been written, and he chose no other than Mauro’s lyrics. Chico was so happy with the project’s outcome, he decided to make an album of it. Winning the Pixinguinha award showed him he had made a wise decision.

In each of Sobre Palavras’ songs, all of the individual creativity and talent of each of the three musicians is seen in perfect sync with a generation that yearns showing the world a new angle to already known musical possibilities. Chico enlightens: “We have brought together Mauro’s poetry, my particular way to compose and arrange and Verônica’s unmatchable singing in such a wonderful manner, that this project has become extremely meaningful to all of our careers.

The songs can be found on the website www.sobrepalavras.com.br and some can be downloaded for free.

CHICO SARAIVA

Chico Saraiva was born in Rio de Janeiro, raised in Santa Catarina and since 1995 calls São Paulo his home. Ever since his debut with the album Água (mcd/1999), sophistication and a popular appeal are seen in his work. He admits Villa-Lobos, Edu Lobo and Guinga have strongly influenced his music. He is undoubtedly one of the best musicians of an entire generation, and winning the 6th Visa MPB composer’s award goes to show just that. With the award, he was able to launch the album Trégua (Biscoito Fino/2003), which the french magazine “Les Inrockuptibles” called a “true masterpiece”. His third album Saraivada (Biscoito Fino/2007) also deserved innumerous prestigious press reviews. Besides making music, he also studies it. Chico is one of the co-founders of the paulistano (from São Paulo) group A Barca, which, since 1998, does research on popular Brazilian music. As part of his latest project, in November 2009, he will perform in the Duo Saraiva-Murray with guitar player Daniel Murray, in Paris.

VERONICA FERRIANI

Paulista (native of São Paulo) Verônica Ferriani, is more than just a pleasant surprise in the musical universe. Besides participating in Sobre Palavras, she is working on the publicity for her first solo CD, Verônica Ferriani, produced by BiD and launched in February 2009. Her flawless performance does not give away a relatively new 5-year career in the music business, which she started in 2004 as lead singer in Chico Saraivas’ band. From that point on, she has done a whole lot. She has shared the stage with Beth Carvalho, Jair Rodrigues, Martinho da Vila, Tom Zé, Marcelo D2 and Moska, has recorded with Lúcio Maia (Nação Zumbi) and Flávio Henrique and sang Ivan Lins’ songs on the TV special Som Brasil (TV Globo, 2007). She has performed in importante samba houses in Rio de Janeiro, such as Carioca da Gema, in the traditional Lapa neighborhood, and São Paulo’s Traço da União and Ó do Borogodó. Last but definitely not least, she is part of the Gafieira São Paulo, which performed for two years non-stop at Tom Jazz, in São Paulo.


MAURO AGUIAR

Mauro Aguiar is a carioca (native of Rio de Janeiro), of baiano (native of Bahia) and paulista (native of São Paulo) grandparents and therefore considers himself “a multi-person, walking the thin line between the limits of reality and the madness of the impossible, a song-writer and singer with an immeasurable passion for music which brings some peace to his troubled soul.” Nowadays finishing up the work on his first CD Transeunte, he has been a Visa Award Composers Edition finalist twice in a row. His songs have been recorded by Ivan Lins, Fátima Guedes, Zeca Pagodinho, Zélia Duncan, Mônica Salmaso and Paula Santoro. He often works with Guinga, Zé Miguel Wisnik, Zé Paulo Becker, Edu Kneip, Mário Séve, Rodrigo Lessa and João Nabuco.

BORANDA

Brazilian music needs yet to be fully discovered by the public and the market alike, both in Brazil and abroad. The record label Borandá intends to make that discovery possible through its never seen before way of producing and promoting Brazilian art and culture. The name Borandá alone is an evidence of the label’s essence. It is the name of a song written by famous Brazilian composer Edu Lobo, and also a popular expression in the northeastern part of Brazil, which means “Let’s get going”. Borandá works with its artists through the original “360 degrees” concept. In other words, it is so much more than just a record label, for it also promotes concerts, helps out with song edition and works on marketing and selling of products. Borandá is aware of the Internet’s strength and possibilities nowadays and therefore uses it to disclose its work. Integrating the virtual world with concerts in Brazil and abroad, it will surely succeed in its mission to take the magic and diversity of Brazilian music to new audiences, making it possible for thought through strategies and innovation to help out Brazilian artistic musical production.

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credits
released 14 August 2009
Sobre Palavras
Verônica Ferriani e Chico Saraiva
Musicas de Chico Saraiva
Letras de Mauro Aguiar
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Track Name: Cabotino Coco
Não há cupim, nem erosão ou esmeril capaz
De carcomer o que compus com tanta inspiração.
Se eu não errei a mão
Tudo perdurará
De geração em geração até galgar a glória!

Abalará a fundação e deixará pra trás
Meus desiguais, nunca jamais me compreenderão.
Se eu não errei no tom
Tudo prosseguirá
E meu refrão ecoará no fundo da memória!

Ninguém decapitará
O que compus opus dei
Copa de jequitibá sombreia
A obra capitular
Que ao futuro ofertei
Já foi pegando uma dianteira.

Arrastará a multidão e ficará no ar
Nessa estação por um milhão de anos-luz ou mais.
Se eu não surtei de vez
Ela resistirá
A roda que tritura a moda à cada nova história...

Então depois ao que compus com o coração na mão
Não caberá definição nem rótulos banais.
Se eu não menti demais
Hão de me dar razão,
Na hora “H” estenderão a mão a palmatória...

Ninguém decapitará
O que compus opus dei
Copa de jequitibá sombreia
A obra capitular
Que ao futuro ofertei
Já foi pegando uma dianteira.

Olha que eu não sou cabotino
É que eu só sei fazer o fino
faço asim desde menino
e até meu coco bater pino
eu vou continuar
só no manjar...
Track Name: De Salto Agulha
De salto agulha
Ela me tritura.
A cada paso em falso dela
Eu subo num cadafalso
No tablado
E ali acorrentado
Aos pés daquela
Que pisa leve na área
Da minha coronária
Morro de bom grado.

De scarpin na carrasqueira
Ela é maneira
Voa, salta, repinica
Ao som do samba
E como anda bela
Abrindo janelas
Nos olhares
Dos meus pares
Pantera dos safaris
Só na dela.

Do salto ela não desce
Nem atende à minha prece
Profana
Aos pés da cama
Me olha de cima
Sente o clima
Curte a fama

De salto agulha
Ela mergulha
E o meu coração
Se derrama.
Track Name: Araripe Ararat
A Serra do Araripe
Pa rirá um pau-de-arara alado
Em meio ao alarido
Do sertão milpovoado.
E no clarão o Cariri
Inteiro caberá num caminhão
dourado.
E então todo entupido
O pau-de-arara alçara voo
Desenxabido.
E só parará pra piriri
De algum desprevenido

E chegará sem pressa
Ao paraíso prometido.
Sem pororoca de pó
Nem semiaridorido.
Só que de queixo caído
O Ceará constatará
O ocorrido.
E disso eu não duvido!
O pau-de-arara ficará parado
E o que era longe vira ali do lado.

E o Cariri inteiro
Meio que contrariado
Hoje estará resolvido:
Que só sonhará colorido
O seu futuro arado aterrizado.
Track Name: Na Pele
Apele pra a pele maluco!
ela é que te dá um toque
ela é que te impele para o ato
antes que tu Te sufoque.

ela é que dispensa o papo
ela é que te faz profundo
nela é que tu roça o mundo
que se tatua em tua entranha.
ela por você apanha
ela guarda o teu afeto.
ela é o seu melhor projeto
nunca vai ser uma estranha.

Apele pra pele maluco!
ela é que te dá um toque
ela é que te impele para o ato
antes que tu te sufoque.

ela é que repensa o fato
sem ficar se remoendo
ela é que acaba vendo
pelos poros o que ninguém ficou sabendo.
Ela não quer ser fronteira
Ela não quer ser limite
ela é que te permite
ser uma pessoa inteira.
Track Name: Sanfona Safenada
Sou sanfoneiro e fungo o fole da sanfona até “virá” poeira
sanfoneiro e fungo o fole até “virá” poeira
Mesmo que chegue a derradeira eu “vô resfolegá”
Enquanto o mundo me escapole eu brinco na fronteira
“Tô” mais pra lá do que pra cá...

Mas se o “gai” do candieiro “tá” querendo se “acabá”
Bem na hora H
Já troncho pra “desencarná”
Eu faço a sanfona “chiá”
Despacho qualquer carpideira
Pra Quixadá

Que gemedeira é só pra gente se chegá
Se aconchegá
Numa esteira, ah!

Sou sanfoneiro e nem me fale, e nem me fale em “pendurá” chuteira
Sou sanfoneiro e nem me fale em “pendurá” chuteira
Minha sanfona safenada “inda” levanta pó
Em cada toque essa danada acende uma fogueira
Pra não “pasá pruma” pior

Mas se a vida na carreira “qué fechá” meu paletó
De madeira e o nó
Já “tá” me apertando o gogó
Eu mando um acorde maior
E abraço a “mulhé” guerrilheira
De Mossoró

Minha sanfona brasileira, meu xodó
Que no forró
Não me deixa só.
Track Name: Lua Pós-Lua
Lua Pós-Lua

Letra de Mauro Aguiar
Musica de Chico Saraiva


Lua acesa
luze-me
Lua alisa-me a asa da ilusão
Que eu zuno abduzido
Adeus! Adeus!
Ah! Deusa de isopor
Venha por meu pôr do sol à prova,
Lua cheia ou lua nova,
O seu dossel de sal é meu!

Lua que o céu produz a sós
Lua do arrebol
asaz antecipada
Arrebatando-me por nada!
Lua que me alicia
Dia é noite, noite é dia
Desliza-me essa azul beleza
Lua leia-me a certeza.
Lua, Lua pantanosa
Musa, musa me desguia!
Minha lua após a NAsA
Onde a nave repousou
cansada
Minha lua ozonizada
lua luz misteriosa
Só em ti me sinto em casa
E vou dormir de alma em brasa.
Track Name: Revés
Logo que me encontrou
Mostrou sua nudez
E eu nem quis indagar porquês
Nem se fazia jus.

Feliz e embasbacado ali
Fugindo em vão dos seus ardis
Já não sabia discernir
O que era sombra e o que era luz.

Mas você despertou
A minha insensatez
E eu sequer pude ser sagaz
Pois nunca lhe supus.

E até para zombar de mim
Do meu revés, minha mudez
Me fez virar de vez refém
Do bem que o seu olhar me fez.

Hoje vivo a perguntar
Onde foi parar meu chão
Em que nuvens estão meus pés e as minhas mãos
Por que é que você não me diz,
Já que estamos a sós, onde pôs
Meus dois olhos exaustos
De ver os seus dois olhos nus?

Não lhe custa responder
Onde está meu coração
Já que desde que lhe vi perdi noção.
Como está pode ser bem capaz
Que ele pulse sem mim, de viés
E eu preciso saber onde jaz
Pra pousá-lo aos seus pés.
Track Name: Errática
Eu recorro ao erro sempre que posso
E erro e erro e erro sem remorso.

O remorso é o filho bastardo da culpa
Aquela que não come a fruta
Mas engole o caroço,
Aquela que não come a carne
Mas não larga o osso.
Aquela que não vive a vida
Mas espera todo suicida
No fundo do poço
No fundo do poço!

Eu recorro ao erro sempre que posso
E erro e erro e erro sem remorso.

Todo erro encerra um acerto
Todo erro é um bom começo
É o esboço do concerto
Mundo farto do estilhaço
Onde sempre amadureço
Onde sempre me refaço
Dessa obrigação do certo
Num lugar pra lá de torto.

Eu recorro ao erro sempre que posso
E erro e erro e erro sem remorso.
E erro e erro e erro e erro e erro e erro e erro sem remorso.
Track Name: Filha de Encanto
Eu sou mandingueira, manteúda e Deus me ajuda ainda
Enfrento quebranto, arenga, agouro e me faço linda
Quando meu grito se alonga
Toda quizila escorrega
foge cega com o gume do lume de Yansã.

Eu sou macumbeira, sapopemba e vivo na curimba
Mas tenho decoro não, guardo meu ouro em minha cacimba
Mel do meu canto decola
Chega em Mamãe Dandalunda
Que faz lá minha onda sonora marejar.

Minha voz labareda do samba no breu
É mandinga que alegra, é milagre, é luar
Trago no meu gongá
Um batuque à granel
Que alaga meu sangue de orgulho iorubá

Eu sou brasileira, beiradeira, e força repentina
Esquento o banho de cheiro pro couro da minha cantiga
Minha garganta de seda
É sedução desabrida
Aprendida na fonte escondida de Oxum.

Eu sou curandeira, rezadeira e tenho a voz caluda
Ungüento e encanto que ponho no corpo mamulengo cura
A lama que me ilumina
Na hora da reza clara
É a calma colhida no colo de Nanã.

Minha voz alameda do samba no pé
É candonga que afaga, é luz negra, é mulher
Trago em meu patuá
Ta lismã de Guiné
Que garante meu canto em qualquer canto que eu for cantar!
Track Name: Canção Extinta
Cai a tarde, o tempo flui
Câmera lenta
Com o dia que se esvai
Meu coração se ausenta
Tentando acalentar uma canção extinta

Foi a tarde, a noite tem
Alma serena
Quando uma estrela cai
De um céu de porcelana
Eu fico a imaginar quem lá de longe acena.

A saudade dói
Mas no seu vai e vem
Ta mbém distrai
Sem fazer alarde
Quem do tempo sai
Vê que nunca é tarde.

Vem
Vamos deixar a vida olhar além numa canção
Tocar a imensidão
Querendo acreditar que vale a pena
Imitar o mar
Enlaçar o céu
Ver o bem por trás da tal cortina
Ta lvez desmesurar
Que um grande amor não desencantará
Enquanto houver alguém
Que saiba asim ficar nessa saudade
Num fim de tarde.
Track Name: Telhado de Vidro
Não adianta vir
Alardeando o fim do mundo
Assim rosnando, cão danado em meu jardim
Do Édem
As circunstâncias pedem
Outros atos menos falhos

Aliás
Contra sua ira momentânea
Que lhe faz refém da fúria
Uma pedra em cada mão
Tenho a sensação que sei de cor
o antídoto
É seu telhado de vidro
Que tem medo do satélite esquecido
Ou de uma estrela cadente
Que alegra tanta gente e tanta gente comemora
e só você nessa hora

Senta no meio fio e chora!
Senta no meio fio e chora!
Track Name: Metralhadora Giratória
Eis o meu samba alucinante
Feito elefante em cristaleira
Metralhadora giratória ai ai ai
Pa rafernália sem fim
Fiz asim
Como quem sai da matéria
Fiz asim
Como quem mira num querubim
Fiz
Pra coisa aqui ficar séria
Fiz pra sangrar sem deixar cicatriz!

Eis o meu samba camicase
Com pose de eminência parda
Indo a reboque da vanguarda ai ai ai
Pa rasitando a matriz.
Fiz questão
De um samba asim sem memória
Quando não
A mão da escória num tamborim
Fiz
Sem esperança de glória
Fiz para quem tá como eu por um triz!

Eis meu samba incoerente
Que mente até que o mito entranha
Va i dando pito enquanto apanha
Leviatã de armazém.

Veja bem
Não falo em contracultura
Veja bem
Não quero a cura do que não tem.
Fiz
Porque ninguém mais atura
Ta nto nonsense e mingau de raiz.
Track Name: Via Aérea
Meu olho no topo do corpo
Espiava outra topografia
Lá do alto do meu pensamento
Era a alma que tudo asistia
Assistia ao balé do momento
Que jamais outro captaria
Um balé pleno de movimento
Sem o peso da coreografia.

E o balé todo não corpulento
No entanto dizia e vivia
E falava uma língua de vento
E mostrava ao que vinha e viria.
O meu olho no cume e no centro
Inventava uma nova alegria.

Alegria de ver não se vendo
Não vendendo ou comprando a matéria
Que o balé ia lento rompendo
Numa bela expressão via aérea
Do que o olho ao olhar ia sendo
Sem saber que era coisa tão séria
Um balé feito do sentimento
De quem tem a visão sempre etérea.